terça-feira, 11 de abril de 2017

Aimé Césaire (1913-2008)

O meu nome: ofendido; apelido: humilhado; estado civil; revoltado; idade: idade da pedra. A minha raça: humana. A minha religião: a fraternidade.”

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Oliver Sacks. SEMPRE EM MOVIMENTO: UMA VIDA (2015)


Chamavam-me de Tintudo quando era menino, e ainda me sujo de tinta como há setenta anos. 
Comecei a escrever diários a partir dos catorze anos e, na última vez que contei, eram quase mil. Existem em todos os tamanhos e formatos, desde caderninhos de bolso que andam comigo até volumes enormes. Sempre mantenho um caderno de notas na mesinha de cabeceira, para os sonhos e pensamentos noturnos, e procuro ter sempre um comigo na beira da piscina, à margem de um lago ou na praia; a natação também me ajuda muito a formular pensamentos que preciso anotar, sobretudo quando já se apresentam em forma de frases ou parágrafos completos, como às vezes acontece.
Quando escrevi o livro da Perna, recorri intensamente aos diários pormenorizados que mantive comigo paciente em 1974. Para O diário de Oaxaca, também recorri bastante aos meus cadernos de notas manuscritas. Mas, de modo geral, raramente examino os diários que redigi durante a maior parte da minha vida. O ato de escrever já é suficiente; serve para desanuviar meus pensamentos e sentimentos. O ato de escrever é parte essencial da minha vida mental; as ideias surgem e são moldadas no ato da escrita.
Não escrevo meus diários para os outros e tampouco costumo voltar a eles, mas constituem uma forma especial, indispensável, de conversar comigo mesmo.
A necessidade de pensar por escrito não se restringe aos cadernos de notas. Ela se espalha para o verso de envelopes, cardápios, qualquer pedaço de papel que esteja à mão. E muitas vezes transcrevo citações que me agradam, redigindo ou digitando em folhas de papel colorido, que prego num quadro de avisos. Quando morava em City Island, meu escritório era repleto de citações, que ficavam num fichário que eu pendurava pela argola nas varetas da cortina acima da escrivaninha.
A correspondência também é uma parte importante da vida. De modo geral, gosto muito de escrever e receber cartas -  é um intercâmbio com outras pessoas, outras individualidades - e não raro me vejo escrevendo cartas quando não consigo "escrever" - seja lá o que  significa Escrever (com E maiúsculo). Guardo todas as cartas que recebo, bem como cópias das minhas. Agora, tentando reconstruir partes da minha vida - como o período crucial e muito movimentado quando cheguei aos Estados Unidos, em 1960 -, essas cartas antigas são um tesouro precioso, corrigindo as ilusões e enganos da memória e da fantasia.
Dediquei uma parcela enorme da minha atividade escrita às minhas notas clínicas - e durante muitos anos. Com uma população de quinhentos pacientes no Beth Abraham, trezentos abrigados nos lares das Irmãzinhas e milhares de pacientes entrando e saindo do Bronx State Hospital, escrevi bem mais de mil notas por ano ao longo de muitas décadas, e gostava disso; as minhas anotações eram extensas e detalhadas, e há quem diga que algumas poder ser lidas como romances.
 De todo modo, sou um narrador, um contador de histórias. Desconfio que o gosto pela narrativa é uma disposição humana universal, que acompanha as nossas capacidades de linguagem, de consciência de si e de memória autobiográfica.
O ato de escrever, quando dá certo, me dá um prazer, uma alegria como nada mais na vida. Leva-me para outro lugar - seja qual for o assunto -, onde fico totalmente absorvido, alheio a distrações, preocupações, inquietações ou mesmo passar do tempo. Nesses estados de espírito raros, celestiais, posso escrever ininterruptamente até não conseguir mais enxergar o papel. Só então percebo que anoiteceu e que escrevi o dia inteiro.
Ao longo da vida, escrevi milhões de palavras, mas o ato de escrever continua tão fresco e tão divertido como na época em que comecei, há quase setenta anos.

SACKS, Oliver. Sempre em movimento: uma vida. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, pp.327-329.
 

domingo, 17 de julho de 2016

Svetlana Aleksiêvitch. A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER (2013)


"Quando as mulheres entraram para o Exército pela primeira vez na história?"
"Já no século IV a.C., em Atenas e em Esparta, havia mulheres lutando nas tropas gregas. Depois, elas participaram das campanhas de Alexandre, o Grande."
"O historiador russo Nikolai Karamzin escreveu sobre nossos antepassados: 'As eslavas às vezes iam para a guerra com seus pais e maridos, sem temer a morte: assim, no cerco a Constantinopla em 626, os  gregos encontraram vários cadáveres de mulheres entre os eslavos mortos. Uma mãe, ao educar o filho, preparava-o para ser um guerreiro'."
"E na Idade Moderna?"
"Primeiro, na Inglaterra; nos anos 1560 a 1650 começaram a se formar hospitais militares em que mulheres-soldados serviam."
"O que aconteceu no século XX?"
"No começo do século... Na Primeira Guerra Mundial, na Inglaterra, já aceitavam mulheres na Força Aérea Real; foram formados um Corpo Auxiliar Real e uma Legião Feminina de Transporte Rodoviário; eram 100 mil  pessoas.
"Na Rússia, na Alemanha e na França, muitas mulheres também começaram a servir em hospitais militares e em trens-enfermarias.
"Mas, na Segunda Guerra Mundial, o mundo foi testemunha do fenômeno feminino. Em muitos países, as mulheres serviram em todas as forças armadas: nas tropas inglesas eram 225 mil; nas americanas, 450, 500 mil; nas alemãs 500 mil...
"No Exército soviético lutaram aproximadamente 1 milhão de mulheres. Elas dominavam todas as especialidades militares, inclusive as mais 'masculinas'. Surgiu até um problema linguístico: as palavras 'tanquista', 'soldado de infantaria', 'atirador de fuzil', até aquela época, não tinham gênero feminino, porque mulheres nunca tinham feito esse trabalho. O feminino dessas palavras nasceu lá, na Guerra..."

De uma conversa com um historiador

ALEKSIÊVITCH, Svetlana. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, pp.7-8.




domingo, 3 de abril de 2016

Svetlana Aleksiêvitch. VOZES DE CHERNOBIL (1997)



Esse cenário de guerra... Essa cultura de guerra ruiu aos meus olhos. Ingressamos num mundo opaco, onde o mal não dá explicações, não se revela e não conhece leis.
Eu vi como o homem pré-Chernobil se converteu no homem pós-Chernobil.
(...)
O tempo mordeu o próprio rabo, o início e o fim se tocaram. Para aqueles que lá estiveram, Chernobil não terminava em Chernobil. Esses homens não regressaram de uma guerra, mais parece que voltaram de outro planeta. Compreendi que de maneira totalmente consciente aqueles homens convertiam seus sofrimentos em novo conhecimento. Ofereciam-no, dizendo: vocês haverão de fazer algo com isso, saberão como utilizá-lo.
Há um monumento aos heróis de Chernobil. É o sarcófago que construíram com as próprias mãos e no qual depositaram a chama nuclear. Uma pirâmide do século XX.

Reator 4 em 1986

Sarcófago do Reator 4 em 1995

Na terra de Chernobil, sente-se pena do homem. Mas o bicho dá mais pena ainda. Não estou desdenhando, vou explicar. O que restou na zona morta depois que as pessoas foram embora? As velhas tumbas e as fossas biológicas, como se referem aos cemitérios de animais. O homem só salvou a pele, todo o resto ele atraiçoou. Depois que as populações partiram das aldeias, pelotões de soldados e caçadores foram lá e abateram os animais. E os cachorros acorriam à voz humana, e também os gatos... E os cavalos não podiam entender nada. E eles não tinham culpa, nem as bestas nem os pássaros, e morriam em silêncio, isso é ainda mais terrível. Houve um tempo em que os índios do México e mesmo as populações russas pré-cristãs pediam perdão aos animais e pássaros quando os sacrificavam para se alimentar. No Egito antigo, os animais tinham direito a se queixar do homem. Num dos papiros conservados nas pirâmides está escrito: "Não há nenhuma queixa do touro contra N." Antes de partir para o reino dos mortos, os egípcios liam uma prece: "Não ofendi nenhum animal. E não o privei nem de grão nem de erva."
O que a experiência de Chernobil nos deu? Terá nos conduzido a esse mundo secreto e silencioso dos "outros"? 
Certa vez, vi como os soldados entraram numa aldeia já evacuada e começaram a atirar . Os gritos impotentes dos animais... Eles gritavam em suas línguas. Sobre isso já se escreveu no Novo Testamento. Jesus Cristo entrou ao Templo de Jerusalém e lá viu animais preparados para o ritual de sacrifício: com o pescoço cortado, esvaindo-se em sangue. Jesus gritou:"Haveis convertido a casa de orações em covil de bandidos." Poderia ter acrescentado: "Em matadouro." Para mim, as centenas de fossas biológicas abandonadas na zona são o mesmo que os túmulos funerários da Antiguidade. Mas dedicados a que deuses? Ao deus da ciência e do conhecimento ou ao deus do fogo? Nesse sentido, Chernobil foi mais longe que Auschwitz e Kolimá. Mais longe que o Holocausto. Chernobil nos propõe um ponto final. Não se apoia em nada.
Observo o mundo ao redor com outros olhos. Uma pequena formiga se arrasta pela terra, e ela agora me é próxima. Um pássaro voa no céu e também me é próximo. Entre mim e eles, o espaço se reduziu. Não há mais o abismo de antes. Tudo é vida.
Lembro também do que me contou um velho apicultor (e depois ouvi de outras pessoas): "Saí ao jardim pela manhã e notei que faltava algo, faltava o som familiar. Nem sequer uma abelha. Eu não ouvia nenhuma abelha! Nem uma! O que é isso? O que está acontecendo? No segundo dia, elas não voaram. E também no terceiro. Depois nos informaram que ocorrera uma avaria na central nuclear, que era perto. Durante muito tempo não soubemos de nada. As abelhas sabiam, mas nós não. Agora, se noto algo estranho, vou observá-las. Nelas está a vida."
Outro exemplo. Eu conversava com pescadores junto ao rio e eles me contaram: "Nós esperávamos que nos explicassem pela tevê, que dissessem como nos salvar. E as minhocas... Eram minhocas comuns, mas entravam para dentro da terra, desciam fundo, meio metro, talvez 1 metro. E nós não entendíamos. Nós cavávamos, cavávamos. Não conseguíamos nenhuma minhoca para pescar."
Quem de nós é o primeiro, quem está mais sólida e eternamente ligado à terra, nós ou eles? Devíamos aprender com eles como sobreviver. E como viver.




quinta-feira, 24 de março de 2016

Augusto Monterroso - A OVELHA NEGRA E OUTRAS FÁBULAS (1969)

O COELHO E O LEÃO

 Um célebre Psicanalista encontrou-se certo dia no meio da Selva, semiperdido. Com a força que dão o instinto e o desejo de investigação, conseguiu facilmente subir numa árvore altíssima da qual pôde observar à vontade não apenas o lento pôr do sol mas também a vida e os costumes de alguns animais, que comparou algumas vezes com os dos humanos. Ao cair da tarde viu aparecer, por um lado, o Coelho; por outro, o Leão. A princípio não aconteceu nada digno de mencionar, mas pouco depois ambos os animais sentiram as respectivas presenças e, quando toparam um com o outro, cada qual reagiu como desde que o homem é homem. O Leão estremeceu a Selva com seus rugidos, sacudiu majestosamente a juba como era seu costume e feriu o ar com suas garras enormes; por seu lado, o Coelho respirou com mais rapidez, olhou um instante nos olhos do Leão, deu meia-volta e se afastou correndo. De volta à cidade, o célebre Psicanalista publicou cum laude seu famoso tratado em que demonstra que o Leão é o animal mais infantil e covarde da Selva, e o Coelho, o mais valente e maduro: o Leão ruge e faz gestos e ameaça o universo movido pelo medo; o Coelho percebe isso, conhece sua própria força, e se retira antes de perder a paciência e acabar com aquele ser extravagante e fora de si, a quem ele compreende e que afinal não lhe fez nada. 

MONTERROSO, Augusto. A ovelha negra e outras fábulas. Tradução Millôr Fernandes. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p.11.


terça-feira, 23 de junho de 2015

Alejandro Zambra - MEUS DOCUMENTOS (2013)

1

A primeira vez que vi um computador foi em 1980, aos quatro ou cinco anos de idade, mas esta não é um recordação pura, provavelmente a confundo com visitas posteriores ao trabalho de meu pai, na Calle Augustinas. Lembro de meu pai com seu eterno cigarro na mão direita, os olhos pretos fixos nos meus enquanto me explicava o funcionamento daquelas máquinas enormes. Ele esperava que minha reação fosse de fascínio, e eu fingia estar interessado, mas assim que podia, escapava para brincar na mesa da Loreto, uma secretária de cabelos e lábios finos que nunca lembrava meu nome.
A máquina de escrever elétrica da Loreto me parecia prodigiosa, com sua pequena tela onde as palavras iam se acumulando até que uma poderosa rajada as cravava no papel. Era talvez um mecanismo similar ao de um computador, mas isso não passava pela minha cabeça. De todo modo, gostava mais de outra máquina, uma Olivetti convencional de cor preta, que conhecia bem, porque na minha casa havia uma igual. Minha mãe tinha estudado programação, mas logo se esquecera dos computadores e preferia aquela tecnologia menor, que continuava atual, porque a popularização dos computadores ainda era algo distante.
Minha mãe não escrevia à máquina para algum trabalho remunerado: o que transcrevia eram as músicas, os contos e poemas de autoria da minha avó, que sempre estava se inscrevendo em algum concurso ou começando enfim o projeto que a tiraria do anonimato. Lembro de minha mãe trabalhando na mesa de jantar, inserindo cuidadosamente o papel-carbono, aplicando comm esmero o corretor quando errava. Teclava sempre muito rápido, usando todos os dedos, sem olhar para o teclado.
Talvez eu possa colocar desta maneira: meu pai era um computador e minha mãe uma máquina de escrever.

12

(...)
Tentei tomar posições, no começo erráticas e momentâneas, um pouco como Leonard Zelig: o que queria era me encaixar, pertencer, e se eram de esquerda, eu também podia sê-lo, como também podia ser de direita em minha casa, embora meus pais não fossem realmente de direita, ou melhor, lá em casa nunca se falava de política, salvo quando minha mãe lembrava e lamentava como havia sido difícil conseguir leite para minha irmã durante o governo da Unidad Popular.
Compreendi que uma maneira eficaz de pertencer era ficar calado. Entendi ou comecei a entender que as notícias ocultavam a realidade, e que eu era parte de uma multidão conformista e neutralizada pela televisão. Minha ideia  de sofrimento era agora a imagem de uma criança que teme que seus pais sejam assassinados, ou que cresceu sem conhecê-los, no máximo por algumas poucas fotografias em preto e branco. Ainda que eu fizesse de tudo para me afastar dos meus pais, perdê-los era, para mim, a situação mais desoladora que podia imaginar.
(...)

14

(...)
Hoje é dia 5 de julho de 2013. Minha mãe não tem mais pôsteres no quarto do casal, mas continua fã de Paul Simon. Nesta manhã, por telefone, falávamos  sobre ele, sobre como será sua vida agora, se terá encontrado ou não a felicidade com Edie Brickell. Garanti a ela que sim, porque penso que eu também seria feliz com Edie Brickell.

É noite, é  sempre noite no fim dos textos. Releio, mudo frases, especifico nomes. Tento lembrar melhor: mais e melhor. Corto e colo, aumento a letra, mudo a fonte, a entrelinha. Penso em fechar este arquivo e deixá-lo para sempre  na pasta Meus documentos. Mas vou publicá-lo, quero fazer isso, embora não esteja terminado, embora seja impossível terminá-lo.

Meu pai era um computador, mina mãe uma máquina de escrever. Eu era um caderno vazio e agora sou um livro.

ZAMBRA, Alejandro. "Meus documentos" IN: Meus documentos. São Paulo: Cosac Naify, 2015, pp.11-12, 28-29, 31.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Harpo Marx - HARPO FALA... DE NOVA YORK (1961)

ESCOLA

A única tradição na nossa família era a falta de tradição.
E assim, aos oito anos de idade, eu estava fora da escola e em liberdade. Não sabia o que fazer comigo mesmo. Mas uma coisa era certa: jamais chegaria perto da Escola Pública 86 ou dentro do alcance do dedo acusador da srta. Flatto de novo. A escola era ótima para Chico, que estava na quinta séria e era um gênio em aritmética, e para Groucho, que só tirava nota 100 na primeira série, mas não para mim. Eu só era bom para sonhar acordado, uma disciplina à qual não davam crédito no sistema escolar da cidade de Nova York.
Meus pais aceitaram o fato de eu estar em liberdade assim como aceitaram toda e qualquer derrota em suas vidas - sem remorso, sem arrependimento. Minnie estava ocupada demais arquitetando a carreira do tio Al para ter muito tempo para mim. Achava que tinha feito o seu dever, apesar de tudo, mandando o vendedor de arenque de Polly até a escola. Frenchie recebeu as novas de minha saída da escola com um encolher de ombros e um aceno de cabeça acompanhado de um sorriso.
Nunca soube ao certo, mas imagino que o inspetor de disciplina deve ter vindo ao nosso apartamento à minha procura . Se o fez,  sei o que aconteceu. Quando bateu à porta achamos que fosse o agente do senhorio, que  vinha cobrar o aluguel, e corremos todos para nossos esconderijos, e eu fiquei quieto até que ouvimos os passos descendo as escadas para a rua.
Quanto a mim mesmo, nunca duvidei que tivesse feito a coisa certa quando caminhei deixando para trás a janela aberta da E. P. 86, para nunca mais voltar. A  escola estava toda errada. Não ensinava a ninguém como existir no dia-a-dia, que era como os pobres tinham de viver. A escola preparava  você para a vida - aquela coisa no futuro remoto -, mas não para o mundo, a coisa que você  tinha que encarar hoje, esta noite, e quando acordava na manhã seguinte sem a menor ideia do que o novo dia traria.
Quando eu era criança não existia realmente futuro. Lutar para sobreviver num período de 24 horas já era duro o bastante sem precisar refletir sobre o período seguinte. Você podia rir do passado, porque tivera sorte bastante para sobrevivê-lo. Mas principalmente havia o presente com que se preocupar.
Outra queixa que eu tinha é que a escola lhe ensinava sobre feriados que você nunca podia comemorar, como o Dia de Ação de Graças e o Natal. Não lhe ensinava sobre os verdadeiros feriados como o dia de São Patrício, quando você podia assistir a uma parada de graça, nem sobre o dia da eleição, quando você podia fazer uma gigantesca fogueira no meio da rua e os tiras não o impediam. A escola não lhe ensinava o que fazer quando, barrado por uma gangue inimiga - quando  correr, quando fazer pé firme. A escola não lhe ensinava a apanhar bolas de tênis, construir um patinete, viajar em trens do Elevado e em bondes, pegar carona em carros de entrega, ser dono de um cachorro quente, sair para nadar, pegar uma lasca de gelo ou uma fruta - tudo isso sem pagar um centavo.
A escola não lhe ensinava que lojas de penhores lhe dariam dinheiro sem perguntar onde conseguiu a mercadoria, ou como jogar bilhar ou apostar numa mão de pôquer ou ainda onde vender ferragens ou encontrar espaço para dormir numa cama com quatro outros irmãos.
A escola simplesmente não lhe ensinava como ser pobre e viver cada dia. Isto eu tive que aprender sozinho, da melhor maneira que pude. Nas ruas eu era, segundo os padrões atuais, um deliquente juvenil. Mas pelos padrões do Lado Leste de 1902, eu era um estudante de honra.
De algum modo, entre a casa e lá fora ("lá fora" sendo qualquer lugar na cidade exceto o apartamento), eu aprendi a ler. Enquanto Groucho suava sobre frases de livros escolares como "Isto é um gato - Oh, vejam o gato" e "Um centavo poupado é um centavo conquistado", eu aprendia a dominar o alfabeto e o vocabulário através de frases como "Esta água é só para cavalos", "Salão de Bilhar Excelsior, um centavo o taco", "Saloon e almoço grátis  - Proibida a entrada de menores", "Não pise na grama", e palavras impressas nos muros e nas calçadas por garotos mais velhos que não podem ser reproduzidas aqui.
Aprendi a ver as horas pelo único relógio disponível à nossa família, o relógio da torre da Cervejaria Ehret's, na rua 93 com a Segunda Avenida, que podia ser vista da janela da frente, se vovô não tivesse fechado a cortina. Vovô, que era o último bastião da religião ortodoxa na família, usava frequentemente a sala da frente para fazer suas preces e estudar a Torá. Quando o fazia, e a cortina estava fechada, tínhamos de passar sem o relógio da cervejaria e o tempo cessava de existir.
Guardo, desde então, a sensação de que, quando as cortina são fechadas, ou o sol se põe, ou as luzes da casa diminuem, o tempo pára. Talvez seja por isso que nunca tive problema para dormir e sempre me levantei cedo. Quando o sol se ergue e a cortina está aberta, o relógio da cervejaria volta a trabalhar. O tempo está em ação de novo e algo poderia estar acontecendo que eu detestaria perder.

MARX, Harpo (1888-1964). Harpo fala... de Nova York. (tradução de Roberto Mugiatti). Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p.25-29.

ELEIÇÕES

Existia um feriado supremo a cada dois anos e não havia nada triste nele. Não era um acontecimento familiar. Pertencia a todo mundo. O garoto mais pobre da cidade partilhava tanto dele quanto o próprio prefeito.
Era o dia de eleição.
Com meses de antecedência eu começava, como todo garoto, a recolher e a armazenar combustível para a fogueira das eleições. Tendo deixado a escola, eu podia dedicar uma porção de  horas extras àquilo. Eu tinha uma carreta feita  em casa, um artefato realmente de luxo. A maioria dos garotos engraxava seus eixos com sebo mendigado ou afanado de algum açougue, mas eu era mais sofisticado. Eu raspava a genuína graxa das rodas da carroças de cerveja, percorrendo o circuito de cervejarias da Ehret's à Ruppert's e à Ringling's.
Eu catava  aduelas, ripas, sarrafos, tampas de cesto, raios de rodas de carruagem quebrados, qualquer entulho jogado fora que queimasse e empilhava tudo num canto do nosso porão. Nisto o zelador me ajudava. A fogueira do dia de eleição era uma tradição que ninguém ousava quebrar. Se você fosse antifogueira você era antiTammany e a vida podia se tornar muito dura sem as benesses da Organização.
O grande feriado durava 30 horas seguidas. Na véspera da eleição, as  forças Tammany marchavam para cima e para baixo pelas avenidas à luz de tochas, com fanfarra de cornetas e rufar de tambores. Havia cerveja grátis para  os homens e bombinhas e iscas para acender o fogo para os garotos e ninguém dormia naquela noite.
Quando raiava o dia, a cidade fechava suas lojas e se concedia um grande momento social - visitando amigos, renovando velhos conhecimentos, reatando velhas discussões -, e votava.
Por volta do meio-dia, um cabriolé, cortesia de Tammany Hall, encostava diante de nossa casa. Frenchie e vovô, vestidos em  seus melhores ternos (que só usavam em casamentos, bar mitzvahs ou enterros), subiam no coche e seguiam em alto estilo para as urnas. Quando o cabriolé os trazia de volta, eles ficavam sentados dentro dele o máximo  de tempo possível sem que o cocheiro se zangasse, saboreando cada momento de sua glória enquanto tiravam baforadas de seus charutos Tammany grátis.
Finalmente, relutantes, desciam ao meio-fio e Frenchie fazia o gesto grandioso de dar ao cocheiro uma gorjeta. Garotos que observavam da rua e vizinhos que observavam das janelas ficavam devidamente impressionados.
Cerca de meia hora depois, o cabriolé reaparecia e Frenchie e vovô iam votar de novo. Se fosse um ano duro, com um movimento de reforma ameaçando a cidade, seriam levados para votar uma terceira vez.
Ninguém se importava com o fato de que vovô não era cidadão dos Estados Unidos ou de que vovô não soubesse ler ou escrever em inglês. Ele sabia de que lado da cédula devia colocar a marca de um "X". Aquilo era o que importava. Além do mais, o primo do genro de vovô era Sam Marx, um grande homem na Organização. O primo Sam tinha muito a dizer sobre os nomes que apareceriam debaixo de uma estrela preta na lista eleitoral. E era ele quem garantia que o coche fosse mandado para o 179 no horário da votação. Um homem de princípio como vovô não tinha outra escolha senão retribuir a cortesia votando.
Então vinha a noite. As ruas eram esvaziadas de cavalos, charretes e carroças. Todo o trânsito nas principais avenidas parava. Às sete horas as bombinhas começavam a estourar, o sinal de que as urnas estavam fechadas. Dando vivas e gritando, toda uma geração de garotos saía aos borbotões dos apartamentos e acendia suas fogueiras. Um quarto de hora depois das sete, o Lado Leste estava em chamas.
Sempre que nossa fogueira da rua 93 dava sinais de morrer, jogávamos uma braçada de lenha, de outro porão, e as chamas se elevavam aos céus de novo. Depois de ter empilhado minha madeira no fogaréu, eu corria para casa a fim de assistir da nossa janela da frente com vovô.
Era bonito. As chamas pareciam subir tão alto quanto o telhado dos apartamentos. A fileira de casas brownstones do outro lado da rua, refletindo o fogo, era uma grande cortina vermelha. E de todas as partes da cidade podíamos ouvir o clangor dos carros de bombeiros. Nossa fogueira nunca se descontrolava, mas muitas outras o faziam na noite de eleição.
Vovô gostava do espetáculo tanto quanto eu e ficava lisonjeado quando eu deixava os outros garotos e vinha partilhar com ele. Puxava a cadeira mais para perto da janela e acendia seu mata-rato Tammany. "Ah, somos felizes de estar na América", dizia em alemão, tragando fundo o charuto que recebeu por votar ilegalmente e erguendo a cabeça para observar as chamas que  subiam. "Ah, sim! Esta é uma verdadeira democracia."
Eu não tinha ideia do que vovô estava falando, mas era um homem de grande fé e o que quer que dissesse era a verdade.


MARX, Harpo (1888-1964). Harpo fala... de Nova York. (tradução de Roberto Mugiatti). Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p.49-53.