domingo, 30 de janeiro de 2011

André Dahmer. Alguma poesia

salva-mar

canta palavrões lindos
senta de cócoras
sobre minha
rígida
aorta

logo você
belo bípede
trepando como
um quadrúpede

e eu

mesmo em pé sonho
como dois em cada dois
mortais

que possuo
um amor
que me possui

vinho novo

se faltar
carinho
ninho

se sobrar
insônia
sonha

se faltar
a paz



minas gerais


trecho de quando um valente valete abandona seu rei

o mundo que amolecer cacetes
o mundo quer endurecer corações

o bar fechou

controladamente
sinto raiva de tudo

um carro passa
e alguém me xinga

sento no chão e repito baixinho o nome dos meus mortos
balanço o corpo com aquele meu jeitão de viciado

rezo para a padaria abrir

abro a carteira para beijar sua foto
gasto o resto do meu tempo pensando
no quanto fomos infelizes

tenho dois cigarros
um cartão de débito
e algumas dívidas afetivas

DAHMER, André. Ninguém muda ninguém. Rio de Janeiro: Flâneur, 2010, pp. 34, 81 , 120, 130.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Charles Bukowski

esta noite

"seus poemas sobre as garotas ainda estarão por aí
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem ido",
meu editor me telefona.

caro editor:
parece que as garotas já se
foram.

entendo o que o senhor diz

mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
cruzando o piso em minha direção

e o senhor pode ficar com todos os poemas

os bons
os maus
ou qualquer outro que eu venha a escrever
depois deste.

entendo o que o senhor diz.

O senhor entende o que eu digo?

BUKOWSKI, Charles. O amor é um cão dos diabos. Porto Alegre: L&PM, 2010, p.36.

sábado, 8 de janeiro de 2011

John Fante. 1933 FOI UM ANO RUIM

Permaneci deitado na noite branca vendo o mau hálito escapar em pequenas nuvens. Sonhadores, éramos uma casa repleta de sonhadores. A vovó sonhava com sua casa na distante Abruzzi. O meu pai sonhava em ver-se livre das dívidas e empilhando tijolos lado a lado com seu filho. A minha mãe sonhava com a divina recompensa de um marido que não se ausentava de casa. Minha irmã Clara sonhava em tornar-se uma freira e o meu irmãozinho Frederick mal podia esperar para crescer e tornar-se um cowboy. Fechando os olhos eu pude ouvir o zumbido dos sonhos pela casa e então adormeci.

FANTE, John. 1933 foi um ano ruim. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990, p.33.


*

Seus olhos saltaram de espanto. Eu o soltei e ele se virou e entrou no ônibus. Eu me afastei, cuspindo o gosto de óleo enquanto ele desaparecia na nevasca. Meti as mãos nos bolsos e comecei a subir a Pearl Street, afundado os pés a caminho de casa, debaixo daquela tempestade sem sentido. Mas a neve tinha suas vantagens, afinal. Ela nos escondia dos outros, escondia nossas sardas e orelhas de abano e a estatura ridícula, enquanto passamos pelos outros fantasmas daquela desolação, cabeças pendidas, olhos abaixados, nossa culpa e inutilidade bem protegidos lá dentro.

FANTE, John. 1933 foi um ano ruim. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990, p.61.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Florbela Espanca

QUE DIFERENÇA!...

Quando passas a meu lado,
E que olhas para mim,
Tornas-te da cor da rosa,
E eu da cor do jasmin.

Vê tu que expressões dif'rentes
Da nossa mesma ansiedade:
A cor da rosa é despeito,
A palidez é saudade!


ESPANCA, Florbela. "Trocando Olhares (1915-17)" em Poesia de Florbela Espanca Volume 1. Porto Alegre: L&PM, 2010, p.27.

Auto-retrato da poeta:

O meu talento! De que me tem servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequena esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que não me tenha feito mal. Talvez culpa minha, talvez... O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!

ESPANCA, Florbela. Poesia de Florbela Espanca Volume 1. Porto Alegre: L&PM, 2010, p.9.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Liv Ullman. MUTAÇÕES



ESTOU AQUI, SENTADA, COM OS PENSAMENTOS ME CONDUZINDO PELO MUNDO afora e para dentro de mim mesma, enquanto tento registrar no papel essa viagem.
Quero escrever sobre o amor - sobre o ser humano - sobre solidão - sobre a existência de uma mulher.
Quero escrever sobre um encontro, numa ilha. Um homem que mudou minha vida.
Quero escrever sobre uma mutação que foi acidental e uma outra, deliberada.
Quero escrever sobre momentos que considero dádivas, bons e maus momentos.
Não creio que minha parcela de conhecimento ou de experiência seja maior do que a de qualquer outra pessoa.
Realizei um sonho - e tive mais dez, em lugar dele. Vi o outro lado de uma coisa cintilante.
Não escrevo a respeito de Liv Ullman que as pessoas encontram nas revistas e nos jornais. Alguns podem pensar que omiti fatos importantes sobre minha vida, mas nunca tive a intenção de escrever uma autobiografia.

ULLMAN, Liv. Mutações. São Paulo: Cosac & Naify, 2008, p.13.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Cacaso: 3 poemas


PASSOU UM VERSINHO voando? Ou foi uma gaivota?



HORA DO RECREIO

O coração em frangalhos o poeta é
levado a optar entre dois amores.


As duas não pode ser pois ambas não deixariam
uma só é impossível pois há os olhos da outra
e nenhuma é um verso que não é deste poema


Por hoje basta. Amanhã volta a pensar neste problema.



LAR DOCE LAR
Para MAURÍCIO MAESTRO

Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio



quinta-feira, 7 de outubro de 2010