terça-feira, 17 de julho de 2012

Alice Ruiz - Poemas


De A a Z
até no alfabeto
tem eu e você 

        *

já estou daquele jeito
que não tem mais conserto
ou levo você pra cama
ou desperto

        *

gosto à beça
esse coração 
na tua cabeça

        *

quero fazer um verso
com todos os elementos
meus encantos
meus lamentos
que atravesse
ares e mares
e te alcance
e te arranque
de todos os pensamentos

 RUIZ S., Alice. Dois em um. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.65, 86, 99, 108.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Italo Calvino. AS CIDADES INVISÍVEIS (1972)

O atlas do Grande Khan também contém os mapas de terras prometidas visitadas na imaginação mas ainda não descobertas ou fundadas: a Nova Atlântida, Utopia, a Cidade do Sol, Oceana, Tamoé, Harmonia, New-Lanark, Icária.
Kublai perguntou para Marco:
- Você, que explora em profundidade e é capaz de interpretar os símbolos, saberia me dizer em direção a qual desses futuros nos levam os ventos propícios?
- Por esses portos eu não saberia traçar a rota nos mapas nem fixar a data da atracação. Às vezes, basta-me uma partícula que se abre no meio de uma paisagem incongruente, um aflorar de luzes na neblina, o diálogo de dois passantes que se encontram no vaivém, para pensar que partindo dali construirei pedaço por pedaço a cidade perfeita, feita de fragmentos misturados com o resto, de instantes separados por intervalos, de sinais que alguém envai e não sabe quem capta. Se digo que a cidade para a qual tende a minha viagem é descontínua no espaço e no tempo, ora mais rala, ora mais densa, você não deve crer que pode parar de procurá-la. Pode ser que enquanto falamos ela esteja aflorando dispersa dentro dos confins do seu império; é possível encontrá-la, mas da maneira que eu disse.
O Grande Khan já estava folheando em seu atlas os mapas das ameaçadoras cidades que surgem nos pesadelos e nas maldições: Enoch, Babilônia, Yahoo, Butua, Brave New World.
Disse:
- É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito.
E Polo:
- O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.150.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Italo Calvino. O TEMPLO DE MADEIRA (1976)

No Japão, o que é produto da arte não esconde nem corrige o aspecto natural dos elementos de que é formado. Aí está uma constante do espírito nipônico que os jardins ajudam a compreender. Nos edifícios e nos objetos tradicionais sempre sã reconhecíveis os materiais de que são feitos, assim como na culinária. A cozinha japonesa é uma composição de elementos naturais que visa sobretudo a realizar uma forma visual, e esses elementos chegam à mesa conservando em grande parte seu aspecto de origem, sem ter sofrido as metamorfoses da cozinha ocidental, para a qual um prato é tanto mais uma obra de arte quanto mais seus ingredientes forem irreconhecíveis.
No jardim, os vários elementos são postos juntos segundo critérios de harmonia e critérios de significado, como as palavras num poema. Com a diferença de que essas palavras vegetais mudam de cor de forma ao longo do ano, e mais ainda com o passar dos anos: mutações calculadas em todo ou em parte ao se projetar o poema-jardim. Depois as plantas morrem e são substituídas por outras semelhantes, dispostas nos mesmo lugares: com o passar dos séculos, o jardim é continuamente refeito, mas permanece sempre o mesmo.
E esta é outra constante posta em evidência pelos jardins: no Japão a antiguidade não tem sua substância ideal na pedra como o Ocidente, onde um objeto ou um edifício só é considerado antigo caso se conserve materialmente. Aqui estamos no universo da madeira: o antigo é aquilo que perpetua seu desenho através do contínuo destruir-se e renovar-se dos elementos perecíveis. Isso vale tanto para os jardins quanto para os templos, os palácios, as vilas e os pavilhões, todos em madeira, todos muitas vezes devorados pelas chamas dos incêndios, muitas vezes mofados e apodrecidos ou feitos em pó pelos cupins, mas a cada vez recompostos parte por parte: os tetos de estrados de casca de cipreste prensada, que são refeitos a cada sessenta anos, os troncos das pilastras e do vigamento, as paredes de tábuas, os telhados de bambu, os pavimentos recobertos de tapetes (os indefectíveis tatames, unidade de medida da superfície dos interiores).
Na visita  aos edifícios plurisseculares de Kyoto, o cicerone assinala a cada quantos anos é substituída essa ou aquela estrutra da construção: a caducidade das partes ressalta a antiguidade do conjunto. Surgem e caem as dinastias, as vidas humanas, as fibras dos troncos; o que perdura é a forma ideal do edifício, e não importa se cada porção de seu suporte material foi retirada e trocada inúmeras vezes, e se as mais recentes ainda cheiram a madeira recém-aplainada. Assim, o jardim continua sendo o jardim desenhado cinquenta anos atrás por um arquiteto-poeta, ainda que cada planta siga o curso das estações, das chuvas, do gelo, do vento; assim os versos de uma poesia são transmitidos no tempo, enquanto o papel das páginas nas quais serão vez a vez transcritos se desfaz em pó.
O templo de madeira marca o cruzamento de duas dimensões do tempo; mas para chegar a entendê-lo devemos afastar do pensamento palavras como "o ser e o devir", porque se tudo se reduz à linguagem da filosofia do mundo de onde partimos não valeria a pena ter feito tanta estrada. O que o templo de madeira nos pode ensinar é isto: para entrar na dimensão do tempo contínuo, único e infinito, o único caminho é passar através do seu contrário, a perpetuidade do vegetal, o tempo fragmentado e múltiplo do que se alterna, se dissemina, brota, resseca ou apodrece.
Mais que os templos cheios de estátuas, de alta estrutura em pagode, atraem-me as construções baixas e os interiores guarnecidos apenas de tapetes, que geralmente correspondem a edifícios profanos, vilas ou pavilhões, mas também em alguns casos a templos ou santuários que convidam a uma meditação abstrata, ou a uma concentração incorpórea. Assim é o templo chamado Pavilhão de Prata, ágil construção de madeira em dois andares à margem de um pequeno lago, com uma única estátia (Kannon, encarnação feminina de Buda) num ambiente para a meditação zen chamado Sala do Esvaziamento da Alma. Assim é o templo Manju-in, que um incompetente como eu julgaria que é zen, mas não é: um templo que parece uma mansão de muitas salas baixas, quase vazias, com os tatames, os vasos de ikebana (que nesta estação apresentam ramos de pinho e camélias, estrelítzias e camélias, e outras combinações de outono), poucas e discretas estátuas e muitos jardinzinhos ao redor.
O templo de madeira atinge sua perfeição quanto mais despojado e sem adornos é o espaço que o acolhe, pois bastam a matéria de que é construído e a facilidade com que se pode desfazê-lo e refazê-lo igual a antes para demonstrar que todas as partes do universo podem cair uma a uma, mas que há algo que resta.

CALVINO, Italo. "O Templo de Madeira" em Coleção de areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.180-182.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Cacaso - BUSTO RENASCENTISTA

BUSTO RENASCENTISTA

quem vê minha namorada vestida
nem de longe imagina o corpo que ela tem
sua barriga é a praça onde guerreiros se reconciliam
delicadamente seus seios narram façanhas inenarráveis
em versos como estes e quem
diria ser possuidora de tão belas omoplatas?

feliz de mim que frequento amiúde e quanto posso a buceta dela


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Kenzaburo Oe. JOVENS DE UM NOVO TEMPO, DESPERTAI! (1983)

- O ser humano às vezes magoa ou é magoado por seus semelhantes no decorrer da vida, não é? E ainda no decorrer da vida, ele salda tanto débito quanto crédito. Ele compensa seu semelhante e também se faz compensar. Ele acerta as contas e depois... Desde os meus tempos de estudante sempre tive a mente ocupada por esse tipo de pensamento, voltado para o futuro, sabe? Mas essa é uma espécie de conta que não se consegue acertar no decorrer de uma vida. No fim, não nos sobra outro recurso senão o de pedir perdão às pessoas que magoamos e, é claro, de perdoar quem nos magoou. Acabei chegando à conclusão de que essa talvez seja nossa única saída. Jesus perdoa os pecados, não perdoa? Dizem que esse ideário surgiu na Europa pós-Grécia e que foi invenção do cristianismo, mas você já chegou a pensar nesse tipo de coisa?
- Bem, eu não entendo de cristianismo - respondi, sentindo-me inútil e culpado. - Mas Blake é ainda mais radical; ele diz que o pecado é um reflexo da soberbia da razão e que como a humanidade inteira chafurda nele, não faria sentido condená-lo ou tentar uma represália contra ele, e que mais importante que tudo é obter o "perdão dos pecados" através de Jesus.
- Obter o "perdão dos pecados"? Pode ser que as coisas se tornassem um pouco mais fáceis se pudéssemos pensar desse jeito. Porque tanto o mal que fazemos aos outros como o que os outros nos fazem, e de que nos lembramos com rancor por muito tempo, significa sofrimento para nós, não é mesmo?
Depois que meu amigo H faleceu, contaram-me que ele teria dito à mulher, momentos depois de sua internação: "Eu estraguei sua vida, não é mesmo?". Lembrei-me então dessa nossa conversa.

OE, Kenzaburo. Jovens de um novo tempo, despertai! (tradução de Leiko Gotoda). São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.276-277.

domingo, 4 de dezembro de 2011

"Locais": Lars Von Trier. ANTICRISTO (2009) & Kenzaburo Oe. O ESPECTRO DE UMA PULGA (1983)



Depois, existe a lembrança de um episódio que me perturbou profundamente na pré-adolescência, não tanto por nele estar envolvido um deficiente mental, mas por haver, sobreposta a ele, certa percepção profunda relacionada a um "local" e que me fez pensar na necessidade de assegurar um "local" onde eu e Iiyo pudéssemos viver.
Foi na primavera do em que, depois de deixar para trás o vale na floresta - lembro-me de ter sentido que aquela era uma fase transitória, passada a qual eu haveria de retornar a meu vale -, eu começara a viver numa pensão familiar de uma cidade provinciana. Era também o último ano de ocupação do território japonês pelas Forças Aliadas, e a presença desse Exército e o episódio estão intimamente ligados, ao menos em minha imaginação.
O incidente tinha sido noticiado num jornal da província - o jornal me foi mostrado posteriormente pelo dono do pensionato, militar que perdera o emprego com o término da guerra - e, de acordo com a reportagem, um menino com problemas mentais havia assassinado uma numa pequena ilha do mar Interno. Ele havia empalado a garota com um enorme espeto de bambu desde a vagina até a garganta. Ao ser preso no local logo depois do crime, o menino, da minha idade, usava um chapéu feito de jornal dobrado cujo aspecto lembrava o quepe usado pelos soldados americanos. Eu mesmo sabia como dobrar o jornal para obter este tipo de quepe, a dobradura andou em voga por um bom tempo...
Lembr0-me também do ex-capitão me dizendo que não queria nenhum de nós, jovens, influenciados por aquele incidente, mas o que me abalara profundamente não tinha sido o detalhe sexual do crime. (Não obstante, lembro-me de ter pensado, com o espanto de quem faz uma nova descoberta: "Realmente, há lúmen interligando o corpo humano desde a genitália até a garganta!".) O que realmente me abalou foi a foto do local do crime que acompanhava a reportagem, uma horta estreita de aspecto abandonado na encosta da montanha de uma ilha, cercada de bambuzal e de arbustos densos, um grotão onde a terra era sempre úmida e fria... Ocorre-me agora que existe semelhança topográfica entre uma ilha pequena e um vale no meio de uma floresta - floresta é mar, muito embora ilha e vale se relacionem inversamente em termos de projeção e reentrância -, mas, seja como for, lembrei-me então que havia em meu vale um lugar semelhante e o mentalizei. O ser humana pratica atos cruéis e indecentes em "locais" semelhantes. Nesse caso, não é o ser humano que age, o "local" é o que o faz agir. Segundo diziam, o menino era débil mental, ou seja, um tipo facilmente influenciado pelo magnetismo "local". No meu vale, as crianças evitavam frequentar tais "locais", e os adultos que tinha de arar essas terras - gente obrigada a frequentá-las por contingências da vida, gente que morria cedo sem que ninguém lhes estranhasse a morte prematura e ao redor das quais pairava algo escuro, perceptível mesmo às crianças - para lá seguiam contrafeitos e com feições contraídas.
A essa altura, percebi consternado que, depois de abandonar meu vale, eu vivia naquele momento num local de estranhos, numa cidade provinciana onde não havia florestas, apenas um rio desmesuradamente grande e árvores desconhecidas, para mim desprovidas de qualquer indicativo, e onde eu não sabia localizar os "locais" repugnantes. Nessas circunstâncias, corria o risco de me ver num desses "locais" sem saber. Eu podia até estar num desses "locais" naquele exato momento, não podia?

OE, Kenzaburo. Jovens de um novo tempo, despertai! São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.132-134.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Kenzaburo Oe. JOVENS DE UM NOVO TEMPO, DESPERTAI! (1983)


De fato eu apreciava bastante esse desenho. A figura tinha sido impressa originariamente na capa de uma coletânea de ensaios do dr. W, "Sobre a loucura e outros assuntos" [Kyoki ni tsuite nado], publicada logo após a guerra. Segundo me lembro, eu havia mandado emoldurá-la e a pusera em meu gabinete porque fora profundamente influenciado pelo seguinte trecho desse livro: "Grandes obras inexistiriam sem loucura, dizem alguns. É mentira. Obras realizadas com loucura vêm sempre acompanhadas de devastação e sacríficio. Obras verdadeiramente grandiosas são realizadas de maneira honesta, persistente e firme por indivíduos humanos com a acentuada consciência da própria suscetibilidade à loucura?"

OE, Kenzaburo. Jovens de um novo tempo, despertai! (tradução de Leiko Gotoda). São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.79-80.