segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O cinema: ensaios

"Mas enquanto azul de cima é quase vazio e estéril, aberto apenas no infinito para a luz das estrelas ou para a aridez dos astros mortos, o espaço de baixo é o da vida, onde misteriosas e invisíveis nebulosas de plâncton refletem o eco do radar. Dessa vida náo somos mais que um gráo abandonado entre outros na praia oceânica. Dizem os biólogos que o homem é um animal marinho que carrega seu mar em seu interior. Nada de espantoso, portanto, que o mergulho lhe dê também, provavelmente, o vago sentimento de volta às origens.
Diriam que estou delirando. Gostaria que dessem outras explicaçóes às minhas sugestóes, mas náo há dúvida de que a beleza do mundo submarino náo se reduz à sua variedade decorativa, nem tampouco às surpresas que ele nos reserva. Foi a inteligência de Cousteau e de sua equipe que compreendeu, desde o início, que a estética da exploraçáo submarina, ou, se preferirem, sua poesia, era parte integrante do acontecimento e que, gerada pela ciência, ela sò se mostrava a ele através da admiraçáo do espírito humano. Um dia virá provavelmente. em que nos tornaremos insensíveis a esse amontoado de imagens desconhecidas. Ainda que o bastiscafo nos prometa muitas descobertas. Azar nosso. Enquanto isso, vamos aproveitar."


André Bazin sobre o filme O mundo do silêncio (Jacques-Yves Cousteau e Louis Malle, 1956) retirado do livro O cinema: ensaios. Sáo Paulo: Brasiliense, 1991, p.44.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Gregory Corso

Para Miles

Teu som é sem falhas
........ puro & redondo
...............sagrado
........quase profundo

Teu som é todo seu
........real & sai de dentro
........uma confissão
........de alma plena & adorável

Poeta cujo som é cantado
........perdido ou gravado
........porém escutado
........consegues lembrar aquela noite em 54 no Open Door
........quando tu & Charlie Bird
........entoaram o lamento daquela partitura assombrosa,
........inimaginável, às cinco da manhã?

Gregory Corso

Sinto saudades daqueles meus gatos

Minhas mãos de aquarela estão agora sem gatos
sentado aqui sozinho na escuridão
minha cabeça como janela está triste com pesadas cortinas
sem gatos estou quase a morrer
atrás de mim meu último gato enforcado na parede
morto por minha ébria mão alcoólica
E em todas as outras paredes do sótão ao porão
minha vida triste de gatos enforcados