quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Valter Hugo Mãe. O PARAÍSO SÃO OS OUTROS (2014)

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 Reparei desde pequena que os adultos vivem muito em casais. Mesmo que nem sempre sejam óbvios, porque algumas pessoas têm par mas andam avulsas como as solteiras, há casais de mulher com homem, há de homem com homem e outros de mulher com mulher.  Há também casais de pássaros, coelhos, elefantes, besouros, pinguins- que são absurdamente fiéis -, quero dizer: há casais de pinguins, e até golfinhos podem ser casais.Tudo por causa do amor.
O amor constrói. Gostarmos de alguém, mesmo quando estamos parados durante o tempo de dormir, é como fazer prédios ou cozinhar para mesas de mil lugares.
Mas amar é um trabalho bom. A minha mãe diz.

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A esperança parece inventada pela espera. Eu não sei esperar. Todos os dias me assusta não ter esperança. Quero muito ter. A  minha mãe manda fazer um esforço. Ela diz: acredite, sempre. Eu acredito, só não estou certa de saber ficar à espera. Quando for maior vou seguramente melhorar nesse desafio.

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...
 Acho que invento a felicidade para compor todas as coisas e não haver preocupações desnecessárias. E inventar algo bom é melhor do que aceitarmos como definitiva uma realidade má qualquer. A felicidade também é estarmos preocupados só com aquilo que é importante. O importante é desenvolvermos coisas boas, das de pensar, sentir ou fazer.

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Descubro cada vez mais que o paraíso são os outros.Vi num livro para adultos. Li só isso: o paraíso são os outros. A nossa felicidade depende de alguém. Eu compreendo bem.

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O amor precisa ser uma solução, não um problema. Toda a gente me diz: o amor é um problema. Tudo bem. Posso dizer de outro modo: o amor é um problema mas a pessoa amada precisa ser uma solução.

MÃE, Valter Hugo. O paraíso são os outros. São Paulo: Cosac Naify, 2014.


quinta-feira, 6 de março de 2014

Lewis Carroll. ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (1865-66)


      Alice estava começando a se aborrecer de ficar sentada ao lado da sua irmã num recosto do jardim, sem nada para fazer. Dava uma ou outra olhadela no livro que a irmã lia, mas implicava:
     - De que serve um livro sem figuras nem diálogos?
     Cheia de preguiça, por causa do calor do dia, ela se perguntava se o prazer de fazer um colar de margaridas valeria o esforço de se levantar e  colher as flores, quando de repente um Coelho Branco de olhos cor-de-rosa passou correndo junto dela.
     Nada havia de muito estranho naquilo. Nem Alice achou assim tão esquisito quando ouviu o Coelho dizer para si mesmo:
    - Oh, meu Deus! Eu vou chegar muito atrasado!
    Mas, quando ele tirou um relógio do bolso do colete, olhou-o  e se apressou, Alice se levantou, dando-se conta de que nunca antes havia visto um coelho nem com colete e nem com um relógio no bolso. Ardendo de curiosidade, seguiu-o correndo, a tempo de vê-lo penetrar numa larga toca sob a cerca.

(...)

    Foi quando se surpreendeu, ao ver o Gato Inglês sentando num galho de árvore a pouca distância dali. O Gato apenas sorriu quando viu Alice. Parecia muito simpático, ela pensou. Tinha, porém, garras muito longas e uma porção de dentes, de modo que ela considerou que deveria tratá-lo com respeito.
    - Gatinho inglês - começou ela, meio tímida, pois não tinha muita certeza se ele iria gostar de ser tratado desse modo.
    O Gato apenas alargou um pouco o sorriso.
   "Ora vejam só! Parece que ele está gostando muito", pensou Alice e foi em frente. - Você poderia me dizer, por gentileza, como é que faço  para sair daqui?
    - Isso depende muito de para onde você pretende ir - disse o Gato.
    - Para mim tanto faz para onde quer que seja... - respondeu Alice.
    - Então, pouco importa o caminho que você tome - disse o Gato.
    - ... contanto que eu chegue em algum lugar ... - acrescentou Alice, explicando-se melhor.
    - Ah, então certamente você chegará lá se continuar andando bastante... - respondeu o Gato.

CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. Tradução Nicolau Sevcenko. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 11, 74.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Hernán Rivera Letelier. A CONTADORA DE FILMES (2009)

Uma vez li uma frase - com certeza de algum autor famoso - que dizia algo assim como a vida está feita da mesma matéria dos sonhos. Eu digo que a vida pode perfeitamente estar feita da mesma matéria dos filmes.
Contar um filme é como contar um sonho.
Contar a vida é como contar um sonho ou contar um filme.

RIVERA LETELIER, Hernán. A contadora de filmes. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p.58.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Nésto García Canclini. A SOCIEDADE SEM RELATO (2012)

Poder-se-iam acumular exemplos para mostrar a persistência destes usos sociais da arte - compensação de frustrações, distinção simbólica -, mas precisamos observar os novos papéis que estendem sua ação para além do que se organiza como campo artístico. Outras explicações vinculadas aos sucessos e aos fracassos da globalização são possíveis: as artes dramatizam a agonia das utopias emancipadoras, renovam experiências sensíveis comuns em um mundo tão interconectado quanto dividido e há o desejo de viver essas experiências em pactos não catastróficos com a ficção.
(...).
O êxito da arte reside em seu caráter "inofensivo" ou ineficaz? Exploraremos este ponto a partir de outra hipótese: a arte é o lugar da iminência. Seu atrativo procede, em parte, do fato de anunciar algo que pode acontecer, prometer o sentido ou modificá-lo com insinuações. Não compromete fatalmente com fatos duros. Deixa o que disse em suspense. 
(...) . Ao dizer que a arte se situa na iminência, postulamos uma relação possível com "o real" tão oblíqua ou indireta quanto na música ou nas pinturas abstratas. As obras não simplesmente "suspendem" a realidade, mas se encontram em um momento prévio, quando o real  é possível, quando ainda não se desfez. As obras tratam os fatos como acontecimentos que estão a ponto de ser.

GARCÍA CANCLINI, Néstor. A Sociedade sem Relato: Antropologia e Estética da Iminência. São Paulo: Edusp, 2012,  p. 18-20. 

Almir Sater e Paulo Simões. O VENTO E O TEMPO (1997)

Verdade é voz que vem de dentro
E mata a sede dos sedentos
O pior entre os meus sentimentos
De mim foi levado enfim pelo tempo
(...)
A melhor das ocasiões
É só questão de investimento
Em vez de armas 
Alimento
Deixar viver, dar o pão